A Ordenação de Mulheres ao ministério pastoral - Parte 1
Há muito tempo que se
discute nos meios eclesiásticos evangélicos a respeito do desejo da mulher
servir na função pastoral em uma igreja, seja à frente de um ministério ou
mesmo de uma igreja. Algumas denominações históricas se veem num embate
teológico a respeito da validade de um ministério pastoral feminino, fazendo
com que os ânimos se aqueçam em diversas ocasiões, normalmente finalizando com
uma imposição autoritarista.
Neste ensaio quero mostrar
que o ministério pastoral feminino deve ser encorajado em nossas igrejas.
ARGUMENTOS
CONTRA A ORDENAÇÃO FEMININA
Há uma série de argumentos levantados contra a
ordenação de mulheres para o ministério pastoral. Gostaria de tratar de cada um
deles.
“Jesus não chamou nenhuma mulher para ser ‘apóstola’,
logo ele não validou o ministério pastoral feminino”.
Este é um dos argumentos mais
repetidos por aqueles que são contra a ordenação feminina. No entanto pecam
contra as Escrituras ao misturar o ministério apostólico e o pastoral. Embora o
ministério apostólico tenha tido características e funções pastorais bem claras
e inquestionáveis, o título “apóstolo” tinha em si uma função mais específica:
ser testemunha ocular da vida e morte de Jesus.Em Atos 1.21,22 lemos:
“Portanto, é necessário que dos homens que
conviveram conosco todo o tempo em que o Senhor Jesus viveu entre nós,
começando desde o batismo de João até o dia em que dentre nós foi recebido em
cima, um deles se faça conosco testemunha da sua ressurreição.”
Esta
foi a ocasião da escolha de Matias para substituir Judas Iscariotes, e deixa
clara a função de ser testemunha da morte e ressurreição de Cristo,
uma função especial e histórica, e que não se repetiria mais. Se Jesus tinha por
propósito ter doze discípulos que encabeçariam o seu ministério depois de sua
ascensão, e que seriam testemunhas válidas de sua vida, morte e ressurreição no
mundo judaico, grego e romano, então necessariamente estas testemunhas
precisavam ser homens.
Veja,
esta necessidade é muito mais cultural do que realmente bíblica, pois a lei do
Antigo Testamento não fazia distinção de sexo para as testemunhas.
O testemunho tanto do homem quanto da mulher era válido para a lei mosaica, mas
a tradição judaica rejeitava o testemunho de qualquer mulher, sendo inclusive
proibidas de testemunhar em uma corte da lei. Isto era um acréscimo humano à
Lei de Deus.
O
Talmude, que não é literatura inspirada por Deus, sendo compilado com diversas
divagações rabínicas e regras cheias de religiosidades anti-bíblicas, inclusive
sendo algumas combatidas por Jesus, era o “livro de cabeceira” do judeu naquele
tempo, e principalmente dos fariseus. É nele onde se encontram as proibições
quanto à aceitação do testemunho feminino, além de diversas afirmações
anti-bíblicas e bem ofensivas, como por exemplo:
“Louvado
seja Deus, pois não me criou como gentio; louvado seja Deus, pois não me criou
como mulher; louvado seja Deus, pois não me criou como ignorante”.
Portanto, para que o testemunho dos
apóstolos fosse válido entre os judeus, suas testemunhas precisavam ser homens,
pois a cultura (e apenas a cultura) da época não aceitava o testemunho de uma
mulher. O mesmo se aplica às culturas
gregas e romanas do primeiro século, que também rejeitavam o testemunho de uma
mulher, e a considerava inferior.
Portanto, nenhum pastor, bispo ou
presbítero tem a autoridade apostólica que Jesus deu aos doze, pois aquela foi
uma função totalmente distinta dos papéis pastorais que depois foram criados na
eclesiologia da igreja primitiva. Resta à igreja atual os dons que o Espírito
Santo distribui segundo a sua vontade e os ofícios declarados no restante do
Novo Testamento.
“O apóstolo Paulo manda que as mulheres
fiquem em silêncio (I Timóteo 2.11-15), logo não devem exercer liderança”
Este é um dos textos mais usados por
aqueles que rejeitam o ministério pastoral e diaconal de mulheres. Alguns
chegam ao extremo de não aceitar mulher sequer como professora de escola bíblica
ou que ocupe qualquer cargo de proeminência na igreja.
Em Timóteo 2, os versículos 8 a 15
são totalmente relacionados ao contexto familiar, e não ao da igreja. Ao citar
Adão e Eva, Paulo enfatiza os papéis masculino e feminino dentro do primeiro
casal, e em nenhum lugar declara ser uma regra para o contexto da igreja, até
mesmo porque se ele estivesse ordenando o silêncio da mulher na igreja estaria
se contradizendo, pois em I Coríntios 11.5 ele admite que a mulher ore e
profetize.
Isso significa
que a mulher não tem autoridade para ensinar o seu marido. Ela se “salva” da
proibição de ensinar no contexto familiar quando lhe nascem filhos (v 15). Veja
que Paulo só começa a falar de funções pastorais e diaconais no capítulo 3 de
Timóteo.
Mas o que ele está querendo dizer
com “aprender em silêncio”? Estaria Paulo negando à mulher o direito de se
expressar dentro de sua própria casa? Não.
A
expressão “em submissão”, do versículo 11 é a mesma palavra grega do versículo
12, e que ali é traduzida por “em silêncio”. A tradução vem da palavra grega hesychia, e que pode significar
“silêncio”, “tranquilidade”, e é difícil expressar a ideia de Paulo com apenas
uma palavra.
A melhor tradução para estes versículos seria:
“A mulher aprenda
tranquilamente, com toda a tranquilidade. Não permito que a mulher ensine, nem
que exerça autoridade sobre o marido, mas que esteja tranquila”.
Sim,
Paulo enfatiza a proeminência do marido dentro de casa, e chama a atenção das
mulheres que aparentemente queriam ensinar seus maridos, ao invés de aprenderem
com eles. Só depois desta orientação familiar Paulo começa a falar do contexto
da igreja.
“Se a mulher deve submeter-se ao seu
marido, logo não pode ser pastora, pois estaria exercendo autoridade sobre ele na
igreja.”
Se este argumento fosse válido então
da mesma forma nenhum jovem poderia ser ordenado pastor, principalmente se seus
pais estiverem em sua própria igreja. Da mesma forma nenhum pastor poderia
pastorear um prefeito, um governador, ou uma autoridade do nosso governo, pois Paulo
também orienta que devemos nos submeter aos governadores e autoridades,
da mesma forma como Pedro orienta.
É claro que um governador convertido
se submeteria à autoridade espiritual de seu pastor sobre ele, assim como um
pai exerceria sua autoridade familiar em casa, mas se submeteria
espiritualmente ao pastoreio de seu filho. Da mesma forma um homem convertido
pode submeter-se ao pastoreio de sua esposa, sendo que em casa ela se submete a
ele como o cabeça da família.
“Quando Paulo cita os pré-requisitos
para alguém tornar-se pastor e diácono (I Timóteo 3), ele só se refere a
homens, logo nenhuma mulher deve ser pastora ou diaconisa.”
Paulo usa diversas palavras no
masculino, ao listar os pré-requisitos daqueles que poderiam ser ordenados
pastores no capítulo 3 de I Timóteo, e alguns usam isto como argumento para
mostrar que ele só tinha homens em mente quando escreveu.
No entanto, era de costume, assim
como é hoje na nossa língua portuguesa, masculinizar termos que visavam
alcançar tanto homens quanto mulheres. Não sendo portanto argumento válido para
esta afirmação.
Mas alguém ainda poderia perguntar:
“E a declaração de que deveria ser casado com uma única mulher (vs 2,12)? Não
há qualquer referência à mulher também dever ser casada com um único homem.”
Paulo explicita que o homem deveria
ser marido de uma só mulher, o que aponta para a poligamia como possível razão
desta ressalva. Alguns interpretam este texto como uma proibição para segundos
casamentos, mas isso é muito improvável, pois estaria contradizendo outras declarações
também suas, como as de I Timóteo 5.14, Romanos 7.2-3 e I Coríntios 7.39.
Portanto,
como o texto se refere a uma ressalva quanto à poligamia, e no primeiro século
o homem realmente poderia ter mais de uma esposa, no entanto é necessário
reconhecer que nenhuma mulher possuía mais de um marido. Talvez por isso ele
tenha sido tão específico nesta ressalva apenas para os homens, pois não se
fazia necessário declarar qualquer coisa a respeito das mulheres.
No
versículo 11 de I Timóteo 3, Paulo começa dizendo: “Da mesma forma as mulheres
...”, mostrando que os ministérios anteriormente tratados(bispos e diáconos)
também se referem às mulheres.
Alguns
gostam de traduzir este texto como “suas esposas”, referindo-se às esposas dos diáconos.
Em grego a palavra usada para “mulher” e “esposa” é a mesma. No entanto,
traduzir para “suas esposas” é uma tradução forçada, visto não possuir em grego
a palavra “suas”, deixando muito claro não se tratar das esposas dos diáconos,
mas sim das mulheres de forma geral, que “aspiram o episcopado”. Portanto, não
há nada neste capítulo que declare que a mulher não possa exercer o ministério
pastoral.
Também
é importante destacar que, como não há o correlato feminino para bispo ou
diácono, é natural que Paulo use o mesmo termo para os dois sexos. Podemos ver
isso em Romanos 16.1, quando se refere à diaconisa Febe. Paulo usa a palavra diakonos para ela, que é a mesma usada
em I Timóteo 3.
“Paulo ordena que as mulheres fiquem
quietas na igreja (I Coríntios 14.34,35), logo elas não devem exercer
ministério pastoral”.
Este é um
capítulo controverso, pois trata do uso dos dons espirituais na igreja de
Corinto, e aparentemente proíbe a mulher de falar qualquer coisa na igreja. Se
for esta realmente a interpretação, significaria que a mulher não pode
realmente exercer qualquer função na igreja, e a exemplo do que acontecia no
antigo templo em Jerusalém, elas seriam meras observadoras do culto, não
podendo falar ou fazer coisa alguma.
Mas esta declaração contradiz
diversas outras passagens que mostram mulheres orando e profetizando, como I
Coríntios 11.5 e Atos 21.9. Como orariam ou profetizariam se eram proibidas de
falar na igreja?
Para entender o que Paulo realmente
quis dizer na passagem devemos ler o contexto do capítulo. Havia uma verdadeira
bagunça acontecendo nos cultos em Corinto, o que fica evidente em I Coríntios
14.23, 33. A declaração de que “Deus não é Deus de confusão” evidencia esta
confusão que acontecia naquela igreja.
Por isso ele deixa claro que quando
alguém estiver orando em línguas, deveria ser feito no máximo por duas ou três
pessoas, e que tivesse intérprete (v. 27). Caso não tivesse alguém com o dom de
interpretação, era para ficar em silêncio(v. 28). Da mesma forma a profecia deveria
ser feita por dois ou três profetas, e quando fosse revelado algo a outro
profeta, e que se levantasse para falar, o primeiro deveria ficar em silêncio,
em respeito ao primeiro(v. 30).
Veja
que Paulo está deixando muito claro que no culto publico era para todos ficarem
em silêncio, em respeito àquele que estivesse orando em línguas(com
interpretação) ou então profetizando. Por isso agora ele destaca as mulheres
(v. 34 e 35), que muito provavelmente conversavam ou questionavam seus maridos
durante o culto. Paulo está dizendo que é para se questionar em casa, e não no
culto. A ordem dada por ele é clara com relação a não conversar, repetindo a
mesma advertência anterior, pois a proeminência do culto deveria ser dada à
interpretação das línguas e às profecias.
Como
declara Barclay (1995, p 69): “Não cabe dúvida de que seria um erro
injustificável tirar estas palavras do seu contexto e impô-las como uma regra
universal para a igreja.” No versículo 31 Paulo declara sem qualquer
restrição de sexo, que “todos podereis profetizar, uns depois dos outros, para
que todos aprendam, e todos sejam consolados”. Logo, homens e mulheres, com
ordem e respeito, podem profetizar na igreja.